Brasília, 31 de Agosto de 2010
Meu amor,
Prometi te deixar a par das peças que eu assistisse. É bom falarmos do que vimos porque parece que os sentidos vão se esclarecendo aos poucos. Hoje, ao contrário do outro dia, vi muita luz. Lembrei-me de ti, claro, quando vi ali muitas brincadeiras infantis. Ahh... a inocência do amor! Às vezes fui pega por ela. Por quê? Bom, porque é essa a beleza do amor pra mim... e, às vezes, quando não fui incomodada por certa imprecisão dos movimentos daqueles acrobatas, que como conversamos traz a tal “falta de verdade”, vi a inocência do amor. Naquelas luzes coloridas que incidiam sobre os dois... o colorido sempre remete à alegria para mim, e aqueles dois com aquelas brincadeiras infantis de casais, me prenderam às vezes. Eles rodavam, riam, se jogavam água...coisas que eu faria contigo. Admito a você que nada ali foi inovador, as acrobacias eram as usuais, daquelas que vemos no circo. E me parecia às vezes que aquilo tudo era uma improvisação sabe, isso me incomodou. Alguns movimentos eram tão imprecisos, o acrobata não sabia direito onde colocar o banco no chão, ou o que fazia com ele no ar para enrolar a platéia até que a acrobata entrasse para seu novo número, o mau uso dos elementos presentes na música e uns cochichos que aconteceram e eu não consegui identificar se faziam parte da cena ou se os dois estavam combinando qual seria o próximo movimento. A questão é, você sabe, que o visual me prende, então quando esses incômodos aconteciam eu tentava ficar presa à luz, ou à sombra da silhueta dos dois, aos movimentos que eram precisos. Isso era sutil... e acho que eles poderiam ter aproveitado mais isso nas cenas sensuais, que ficaram banais por essa tal imprecisão dos movimentos e a falta da diversidade deles, e a dissonância com a música. Achei tudo de uma delicadeza... inclusive o nome: Tecendo fios d’Éter. Os momentos acontecem num espaço de tempo que já foi, e este momento em que eu disse isso, já é passado. Isso é tecer fios de éter, não é? Pois o éter evapora fácil. Essa é a vida. Cada momento É e PASSA. Ali estavam as brincadeiras, a briga, a união, todas essas coisas que são e passam. Essas coisas que vamos tecendo e evaporam em seguida. Até a solidão do ser humano. É que... ali, a gente ia se envolvendo com aquelas músicas, muitas vezes desconexas com a expressão daqueles corpos e de repente, depois de uma briga banal dos dois, fez-se a parte que nenhuma música toca tanto: a solidão. Mostrada ali pelo silêncio. Depois de tanto som e luz, estava o acrobata, no alto da corda com um foco de luz, e o silêncio. Depois um grito. É, a solidão. E um pensamento vagando: “no fundo todos somos sós”. Bom, mas é daí, não é? No fundo, aquelas risadas dadas no meio de toda a água derramada no palco e o retorno às brincadeiras infantis fazem a gente querer mentir pra si dizendo que no fundo não somos todos sós. Eu tenho você. E vamos tecer, mesmo que se esvaiam, todos os fios de éter da vida.
Isabella Pina
Olá Nadia, adorei o seu blog, os textos são muito bons. Criei um post e como você me segue (: queria saber sua opinião, http://lereangefearless.blogspot.com/2012/02/youtube.html , depois se quiser ver e comentar fique a vontade!
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