quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Abracartabras

Brasília, 30 de Agosto de 2010

Lô,

Não sei como começar a escrever, estou extasiada. Extasiada de várias formas, mas para te explicar melhor digo que pela “muita informação” dos últimos dias. Fui questionada há uns dois dias, indiretamente, mas fui, sobre a função da arte, sobre o que é arte, sobre o que precisamos para o teatro, sobre nossa dependência de recursos e de quais recursos realmente precisamos no teatro. Bom, a questão é que assisti a uma peça que se fosse a um tempo atrás eu encheria o peito para dizer “horrível!”, e que é o que provavelmente a maioria dos considerados “leigos” no campo teatral diriam. Não que eu saiba grande coisa também. O fato é que depois de tempos assistindo à peças que se enquadram no nosso conceito de belo, ou que no mínimo deixam qualquer mensagem bastante imediata me deparei com certa “experimentação’ que testou meus nervos. Digo que fui questionada nesses sentidos porque acho que minhas noções de tudo o que aí te disse estavam cristalizadas, sabe. Quando se vê tudo o que vi depois de ter tais noções cristalizadas, fica-se com muitas perguntas.
Fui assistir “Abracadabra”, um monólogo do Luiz Päetow. O ator usou de três elementos: ele mesmo, a platéia, e as lanternas que foram distribuídas na entrada da sala de teatro. Estava escuro e , quando ele começou a falar, escondido atrás de umas cadeiras, no fundo do teatro, me vi completamente incomodada diante de um texto desconexo ou aquelas brincadeiras fonéticas com as palavras, que em outra ocasião ousam chamar de poesia. Primeiro que não é habitual falar palavras desconexas, segundo por causa da voz que ele usava. No início ele pediu que não acendêssemos nenhuma lanterna. Ele usava uma voz lenta e marcada, nada realista, claro. E mesmo às vezes nada fazendo sentido eu queria saber qual era a próxima palavra, porque queria ver o desfecho daquilo. É que, ali, sem a luz, o espetáculo se restringia aos ouvidos. Decerto você me pediria para dizer logo se isso era bom ou ruin, a questão é que não consigo te dizer, digo que foi uma experiência no mínimo curiosa e questionadora e de... “uma eterna espera”, justamente porque eu esperava um enredo, no mínimo um diálogo mais consistente com os espectadores. É engraçado isso, a expectativa da platéia, falo por mim mesma é claro. No fundo a gente sempre vai esperando por, no mínimo, um clímax. A peça não tinha clímax. Na verdade eu não sei a definição exata de “peça” e não consigo dizer se esse monólogo se encaixaria nela. Te digo, como já disse, que estou extasiada, e foi assim que voltei pra casa. Quando saí, junto com o Paulo o ator não tinha saído do palco, e continuava a falar num volume inaudível, mas entendi que aquilo não tinha fim, afinal, na programação a peça tinha uma hora e vinte minutos e haviam se passado duas horas. Mais da metade dos espectadores já haviam saído da sala. Voltei pensando na proposta do ator, sabe... a intenção para mim ficou clara, era de incômodo, de estranhamento. E pegou mais facilmente o público que foi assistir com grandes expectativas. Ainda discutimos, eu e o Paulo um pouco. Acho que se aquilo ali tivesse um desfecho, um fim, não teria me causado a mesma sensação de agonia que senti. E me senti desafiada. Só saí da sala porque tinha um compromisso e não podia mesmo ficar, mas a vontade era tal qual “vou ficar aqui até não ter mais ninguém nessa sala, você vai ter que terminar esse monólogo”. Me senti desafiada mesmo. E claro, me vi completamente dependente de recursos ausentes aí. Céus, eu nunca pedi tanto por luz.
De fato a experiência foi inesquecível. Valeria a pena, de qualquer forma que você tivesse visto, do jeito que sou, falando esse monte de coisas eu não sei se influiria. Eu veria denovo, só pra ver os novos diálogos com o público e pra ver se foi só no dia que eu fui que isso não teve fim. Bom, até hoje vou dormir pensando na tal proposta. Está tarde por aqui, Lô, tenho sono e vou dormir, te escrevo mais em breve.

Beijos,
Isabella.

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