quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Tecendo fios d'Éter

Brasília, 31 de Agosto de 2010

Meu amor,


Prometi te deixar a par das peças que eu assistisse. É bom falarmos do que vimos porque parece que os sentidos vão se esclarecendo aos poucos. Hoje, ao contrário do outro dia, vi muita luz. Lembrei-me de ti, claro, quando vi ali muitas brincadeiras infantis. Ahh... a inocência do amor! Às vezes fui pega por ela. Por quê? Bom, porque é essa a beleza do amor pra mim... e, às vezes, quando não fui incomodada por certa imprecisão dos movimentos daqueles acrobatas, que como conversamos traz a tal “falta de verdade”, vi a inocência do amor. Naquelas luzes coloridas que incidiam sobre os dois... o colorido sempre remete à alegria para mim, e aqueles dois com aquelas brincadeiras infantis de casais, me prenderam às vezes. Eles rodavam, riam, se jogavam água...coisas que eu faria contigo. Admito a você que nada ali foi inovador, as acrobacias eram as usuais, daquelas que vemos no circo. E me parecia às vezes que aquilo tudo era uma improvisação sabe, isso me incomodou. Alguns movimentos eram tão imprecisos, o acrobata não sabia direito onde colocar o banco no chão, ou o que fazia com ele no ar para enrolar a platéia até que a acrobata entrasse para seu novo número, o mau uso dos elementos presentes na música e uns cochichos que aconteceram e eu não consegui identificar se faziam parte da cena ou se os dois estavam combinando qual seria o próximo movimento. A questão é, você sabe, que o visual me prende, então quando esses incômodos aconteciam eu tentava ficar presa à luz, ou à sombra da silhueta dos dois, aos movimentos que eram precisos. Isso era sutil... e acho que eles poderiam ter aproveitado mais isso nas cenas sensuais, que ficaram banais por essa tal imprecisão dos movimentos e a falta da diversidade deles, e a dissonância com a música. Achei tudo de uma delicadeza... inclusive o nome: Tecendo fios d’Éter. Os momentos acontecem num espaço de tempo que já foi, e este momento em que eu disse isso, já é passado. Isso é tecer fios de éter, não é? Pois o éter evapora fácil. Essa é a vida. Cada momento É e PASSA. Ali estavam as brincadeiras, a briga, a união, todas essas coisas que são e passam. Essas coisas que vamos tecendo e evaporam em seguida. Até a solidão do ser humano. É que... ali, a gente ia se envolvendo com aquelas músicas, muitas vezes desconexas com a expressão daqueles corpos e de repente, depois de uma briga banal dos dois, fez-se a parte que nenhuma música toca tanto: a solidão. Mostrada ali pelo silêncio. Depois de tanto som e luz, estava o acrobata, no alto da corda com um foco de luz, e o silêncio. Depois um grito. É, a solidão. E um pensamento vagando: “no fundo todos somos sós”. Bom, mas é daí, não é? No fundo, aquelas risadas dadas no meio de toda a água derramada no palco e o retorno às brincadeiras infantis fazem a gente querer mentir pra si dizendo que no fundo não somos todos sós. Eu tenho você. E vamos tecer, mesmo que se esvaiam, todos os fios de éter da vida.

Isabella Pina

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Abracadabra

Brasília, 30 de agosto de 2010

Caro Amigo,

Assisti ao espetáculo e vi você lá. Não fui conversar com você, pois parecia que você estava tão concentrado no que estava assistindo, via você com seus olhos fechados, escutando tudo com atenção, afinal o espetáculo começa com tudo no escuro.

Mas o que você estava assistindo? Acredito que você, como uma pessoa que estuda na área, saiba me responder essa pergunta, estou certo? Se você esta na área, você deve entender da área, assim acredito. Será, realmente, que tudo é tão simples como visualmente foi mostrado? Porque não havia nada o que se ver, não havia nada o que se observar, havia apenas o que se buscar, o palco nu, apena um caixote preto que no meio do fundo preto sumia. E será que tudo é tão complicado e estranho como foi dito? Parecia tão desconexo, sem sentido, que tinha sentido. Perguntas que nunca me vieram à cabeça, e que me incomodaram me levando a pensar se realmente era isso que eu fazia que você fazia. Será?

Palavras soltas ao vento do ar condicionado, algumas vezes o que ele dizia não fazia nenhum sentido que me parecia voar e não me possibilitava entender. Estava frio lá dentro, vou levar um casaco melhor da próxima vez. Luzes brancas que não paravam de rodar, será que todo mundo é tão sinestésico que não conseguia parar de fazer movimentos circulares com as lanternas? Além de um palco nu, não havia iluminação, ou melhor, havia nas mãos de parte dos espectadores que fixavam a luz dele, mas não paravam de rodar. Um laser de um espectador sapeca olha o que me chamou a atenção, tava tudo tão sem cor que um ponto vermelho não parava de me chamar à atenção, acho que tal espectador esta insatisfeito por não ter recebido a lanterna e resolveu brincar também. E os espectadores revoltados com outros espectadores, isso foi engraçado, não temos liberdade de fazer o que queremos, quanto mais de iluminar o escuro mais de perto, a proposta não era de iluminarmos aonde quisermos? Ate onde sei, nunca disseram que não podíamos iluminar melhor o que estávamos ouvindo.

Parecia-me um espetáculo intelectual em que apenas algumas pessoas entenderiam, pois às vezes via as pessoas rindo, mas eu não tinha entendido a piada. Um texto desconexo, sem sentido, que fazia sentido e me levava a acreditar que era um ignorante perto de tudo que estava sendo dito ou não dito. E me parecia, mais uma vez, que era um espetáculo para o ator, sem preocupação com o publico, apenas provocação. Mas provocar também não é preocupar? Tenho visto outros espetáculos que me levaram a pensar isso, o espetáculo apenas para o prazer de quem o esta fazendo.

Enfim, aguado respostas depois de suas reflexões no grupo.

Nitiel Fernandes

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Abracartabras

Brasília, 30 de Agosto de 2010

Lô,

Não sei como começar a escrever, estou extasiada. Extasiada de várias formas, mas para te explicar melhor digo que pela “muita informação” dos últimos dias. Fui questionada há uns dois dias, indiretamente, mas fui, sobre a função da arte, sobre o que é arte, sobre o que precisamos para o teatro, sobre nossa dependência de recursos e de quais recursos realmente precisamos no teatro. Bom, a questão é que assisti a uma peça que se fosse a um tempo atrás eu encheria o peito para dizer “horrível!”, e que é o que provavelmente a maioria dos considerados “leigos” no campo teatral diriam. Não que eu saiba grande coisa também. O fato é que depois de tempos assistindo à peças que se enquadram no nosso conceito de belo, ou que no mínimo deixam qualquer mensagem bastante imediata me deparei com certa “experimentação’ que testou meus nervos. Digo que fui questionada nesses sentidos porque acho que minhas noções de tudo o que aí te disse estavam cristalizadas, sabe. Quando se vê tudo o que vi depois de ter tais noções cristalizadas, fica-se com muitas perguntas.
Fui assistir “Abracadabra”, um monólogo do Luiz Päetow. O ator usou de três elementos: ele mesmo, a platéia, e as lanternas que foram distribuídas na entrada da sala de teatro. Estava escuro e , quando ele começou a falar, escondido atrás de umas cadeiras, no fundo do teatro, me vi completamente incomodada diante de um texto desconexo ou aquelas brincadeiras fonéticas com as palavras, que em outra ocasião ousam chamar de poesia. Primeiro que não é habitual falar palavras desconexas, segundo por causa da voz que ele usava. No início ele pediu que não acendêssemos nenhuma lanterna. Ele usava uma voz lenta e marcada, nada realista, claro. E mesmo às vezes nada fazendo sentido eu queria saber qual era a próxima palavra, porque queria ver o desfecho daquilo. É que, ali, sem a luz, o espetáculo se restringia aos ouvidos. Decerto você me pediria para dizer logo se isso era bom ou ruin, a questão é que não consigo te dizer, digo que foi uma experiência no mínimo curiosa e questionadora e de... “uma eterna espera”, justamente porque eu esperava um enredo, no mínimo um diálogo mais consistente com os espectadores. É engraçado isso, a expectativa da platéia, falo por mim mesma é claro. No fundo a gente sempre vai esperando por, no mínimo, um clímax. A peça não tinha clímax. Na verdade eu não sei a definição exata de “peça” e não consigo dizer se esse monólogo se encaixaria nela. Te digo, como já disse, que estou extasiada, e foi assim que voltei pra casa. Quando saí, junto com o Paulo o ator não tinha saído do palco, e continuava a falar num volume inaudível, mas entendi que aquilo não tinha fim, afinal, na programação a peça tinha uma hora e vinte minutos e haviam se passado duas horas. Mais da metade dos espectadores já haviam saído da sala. Voltei pensando na proposta do ator, sabe... a intenção para mim ficou clara, era de incômodo, de estranhamento. E pegou mais facilmente o público que foi assistir com grandes expectativas. Ainda discutimos, eu e o Paulo um pouco. Acho que se aquilo ali tivesse um desfecho, um fim, não teria me causado a mesma sensação de agonia que senti. E me senti desafiada. Só saí da sala porque tinha um compromisso e não podia mesmo ficar, mas a vontade era tal qual “vou ficar aqui até não ter mais ninguém nessa sala, você vai ter que terminar esse monólogo”. Me senti desafiada mesmo. E claro, me vi completamente dependente de recursos ausentes aí. Céus, eu nunca pedi tanto por luz.
De fato a experiência foi inesquecível. Valeria a pena, de qualquer forma que você tivesse visto, do jeito que sou, falando esse monte de coisas eu não sei se influiria. Eu veria denovo, só pra ver os novos diálogos com o público e pra ver se foi só no dia que eu fui que isso não teve fim. Bom, até hoje vou dormir pensando na tal proposta. Está tarde por aqui, Lô, tenho sono e vou dormir, te escrevo mais em breve.

Beijos,
Isabella.